A sustentável leveza de morrer para as redes sociais

The Clowns of War Arguing in Hell, de José Orozco

Reagir para não agir. As redes sociais desocupam as ruas e ocupam o ócio do ser humano — preso a uma virtualidade que é lida e assimilada pelo cérebro como concreta e mais real que o mundo físico, a carne tangível. “É apenas um aplicativo que ajuda as pessoas a se conectar umas com as outras”, “pequenos negócios surgem de maneira independente”, “influenciadores podem lucrar”, “imagina a quarentena sem esses aplicativos?”, “é neutro e depende de como você usa” etc. É como se as redes sociais fossem lidas como um campo aberto, um espaço público, inofensivo, uma ferramenta neutra. Mas não são. São empresas, propriedades privadas, frutos de atos conscientes, nem um pouco arbitrários ou imparciais de pessoas interessadas no exercício consciente de poder, controle social e econômico. Vivemos, neste exato momento, um novo colonialismo, um colonialismo digital impulsionado pelas redes sociais, as caravelas do século XXI e, nós, como os povos originários, recebemos a “novidade” com vislumbre e pouca desconfiança ou problematização.

Uma armadilha que, como pontuou Umberto Eco (e parece que ninguém deu ouvidos, talvez, só likes), deu voz ao idiota da aldeia. Não só deu voz, como o empoderou, mitificou, permitiu com que os idiotas do mundo se unissem e reconquistassem os espaços que vinham perdendo (ou nunca tiveram): fizeram-se presidentes, com a ajuda das redes sociais: tornaram-se donos de propriedades intelectuais: tornaram-se eles mesmos propriedades intelectuais. Uma armadilha que, por ironia (ou não), assim como o vírus que está assolando o mundo e provocando essa pandemia (a da Covid-19), infectou o corpo da sociedade e só passou a manifestar seus sintomas após um período que o possibilitou se multiplicar e contaminar mais e mais corpos.

Mas essas reflexões são coisas de um lobo solitário, comportamento de um iconoclasta. Não há alternativa, não tem como voltar atrás. É insustentável.

Porém, entretanto, não obstante, a partir do momento que não só desativei, mas excluí meus perfis das principais redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, TikTok…), passei a experimentar uma espécie de morte. Morri para as pessoas do século XXI que possuem perfis nas redes sociais que eu ousei cometer o sacrilégio último: excluir a conta: não desativar temporariamente, mas passar pelo antônimo e longo (quase impossível) processo de excluir minhas contas. Morri.

“Fui te marcar e não te encontrei, você deletou sua conta?”, “como você não está lá, né, fazer o quê”, “e agora, eu sabia que ele tinha umas críticas, mas…”.

Nem Morpheus, nem Neo. Passei (promovido ou rebaixado) a indigente descartável em Zion — se isso fosse o filme Matrix: é quase. Mas é sustentável. Uma sustentável leveza: que me permitiu viver fora de um ambiente tóxico, plástico: masturbação compulsiva: se considerar a melhor das hipóteses: morto, mortinho: nem as pessoas “mais próximas”: poucas, talvez: tiveram forças para um “oi, como você está?” “como tem passado?”: fora das redes sociais: não sou visto: nem lembrado: morto, sepultado. Amém.

A quantidade e a qualidade da leitura aumentaram, a criatividade, o bem estar, bem como a conexão com o mundo real: ver os acontecimentos políticos, se informar sem as lentes bárbaras das redes sociais: um alívio: respirar com os próprios pulmões: cultivar o jardim: conduzir e não ser conduzido: libertar-se.

Se a liberdade é mesmo um estado da mente, que a minha mente, pelo menos, esteja imunizada, ande com as próprias pernas, contra esse colonialismo digital.

Meus ancestrais erraram ao permitir que náufragos, assassinos e bandidos pisassem no solo sagrado onde nasceram.

Eu não.

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