Quatro mil mortes evitáveis por dia, mais de trezentas e cinquenta mil mortes em menos de dois anos, apenas no Brasil. Do jeito que as coisas andam, é capaz que neste mês de abril, apenas em um mês! (sim, reforço, apenas em um mês, 30 dias, 4 semanas), morram aqui no Brasil mais pessoas do que as duas bombas atômicas, não uma, duas bombas!, mataram em Hiroshima e Nagasaki. Não temos imagem em preto e branco, estática, de crianças correndo nuas e desesperadas com o corpo queimado pela radiação das bombas para se horrorizar e se sensibilizar, mas temos vídeos (em HD), fotos sendo postadas a todo instante, dados e mais dados, cemitérios, hospitais, com um cenário catastrófico piorando a cada dia, a cada igreja lotada, a cada Marcha da Família Cristã pela liberdade de matar não quinhentas mil, mas um milhão de pais, mães, filhos, filhas, avós, enfermeiros, médicos e a lista, no Brasil, é quase infinita (há um cara ocupando o maior cargo do executivo que está trabalhando agressivamente para que seja infinita).

Mas as pessoas que não usam máscara, aglomeram, não se cuidam, também são culpadas. Sim, quem não se cuida é responsável também, mas entre o Zé da Conveniência e o Presidente da República, quem tem mais poder para fazer algo que seja realmente efetivo a nível nacional? Quem exerce maior influência, tem maior poder de alcance, capital?

Estou aqui escrevendo isso como sangria, é informação (infelizmente, redundante) e já ando em círculos. A minha dor e desalento já ultrapassaram os níveis que o meu corpo e a minha mente são capazes de traduzir, de assimilar. Não estou anestesiado, estou, sim, vivendo uma dor intraduzível, no meio de um país que está trabalhando (principalmente o poder executivo, não se canse de repetir) para que nessa Terra de Mortos surja, ainda este ano, uma variante do vírus capaz de inutilizar as vacinas e transformar essa pandemia em uma pandemia infinita.

Talvez a Pandemia acabe, mas para o resto do mundo.

Se o resto do mundo for precavido e levantar muros e isolar o Brasil bolsonarista (existe outro Brasil, mas este está, neste momento, preso nos porões, calado, sendo torturado), talvez a Pandemia acabe e a Pandemia se transforme em uma endemia exclusiva da Terra dos Mortos, do Brasil de Bolsonaro.

Esse era o mal menor, a escolha difícil de 2018. O fantasma do comunismo enfim será extinto pela gripezinha do bolsonarismo. Afinal, fantasma não assombra mortos. Já falei que hoje somos a Terra dos Mortos? E pensar que um dia já fomos o país que saiu do mapa da fome, da empregada que ia com os filhos para a Disney, a sexta potência econômica do mundo. Agora só vencemos o resto do mundo em número de mortes, desemprego, corrupção e fome…, mas antes que era ruim, né?

Está vendo? Estou andando em círculos, todo mundo sabe disso. Quem não sabe, sabe, finge não saber. Mas vai fingir até quando? Até um milhão de mortes evitáveis? Até o surgimento de uma variante que inutilize as vacinas?

Sigo me despedaçando, é inevitável, isolado e em distanciamento social desde março de 2020, fazendo o que posso e o que está ao meu alcance. Se eu morrer, morrerei com a consciência menos suja (quem tem a consciência limpa nessa Terra dos Mortos que atire a primeira pedra). E os dias vão passando, as mortes aumentando, enquanto eu e o meu não eu, que também é um eu, um sou e não sou eu, choramos na vídeo chamada.

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