Leonor nasceu filha de Jurema e Nicolau, filha dos herdeiros originários dessa terra e dos herdeiros originários das terras além mar. Leonor cresceu uma menina de cabelos escuros e traços mestiços, serelepe e arteira, cresceu a primogênita de cinco filhos, a que veio primeiro antes de Jorge, antes de Anita, antes de Elizabeth e antes de Terezinha. Filha primogênita que herdou o sobrenome grego Triandopolis, cidade de pedra, o guarani se perdeu ou ninguém se importou de ir atrás. O Brasil não deixou. Leonor, o nome, também de origem grega, significa tocha luminosa. Desde criança, uma tocha acesa iluminando a cidade de pedra. A luz da tocha é fogo, e assim Leonor cresceu: fogo que ilumina: mas fogo que precisa consumir óleo e lenha para aluminar. Fogo que só queima se tiver algo para queimar. Leonor chama, fogo hedonista, fogo criador, fogo destruidor, que aquece, mas também queima e deixa cicatriz, às vezes, chão queimado, como os antepassados de sua mãe Jurema faziam, fogo para o plantio, para plantar e germinar. De menina arteira, Leonor tornou-se uma jovem mulher namoradeira, firme e forte no seu hedonismo orgânico. Quantos namorados ela teve? Jamais serei capaz de contar. Mesmo assim Leonor casou-se, não sei se por amor, mas sob a cruz de uma nação laicamente cristã, onde não se casa por amor, mas, sim, porque assim se espera — por protocolo. Casou-se. Engravidou a primeira vez, perdeu os primogênitos. Pois assim ela contava. Ou assim eu lembro que ela contava. Depois teve um, quando o casamento já desandava teve um segundo, com o casamento já quase no fim teve uma terceira, mas fora do casamento, mesmo tendo nascido dentro. Genealogias típicas do ocidentalismo cristão. Leonor dizia que não gostava de mentiras, mas mentia muito. Todavia, com a mesma proficuidade que tinha para mentir também fazia os outros sorrirem ou sentirem-se muito bem acompanhados. Não foi à toa que Leonor só parou de frequentar os bailes quando não teve mais condições. Mesmo com os filhos pequenos e divorciada, trancava-os na casa e chispava para a boemia. Hedonismo era nome do meio para Leonor. Sempre namoradeira, antes, durante e depois do casamento. Foi criando os filhos de um jeito torto assim. Se as gentes grandes não conseguiam domar o fogo sem se queimar, quem eram os miúdos que Leonor pariu, por planejamento ou por consequência, para conter tal lume. O fogo de Leonor abrandou quando precisou cuidar do irmão Jorge, que estava sendo consumido pelo fogo do câncer. Cuidou do irmão destituído e, ali, sem querer, ensinou, através do exemplo, humanidade aos filhos. O irmão morreu. O fogo voltou a queimar com mais intensidade, quando a morte bate, mesmo sendo a porta vizinha, é como se a vida jogasse mais óleo inflamável sobre as chamas. Não sei se Leonor soube, mas Leonor viveu. Viveu fazendo jus ao nome. Tocha acesa sobre a frieza da cidade de pedra. Tenho certeza, Esopo pensava em Leonor quando contou sobre a cigarra em sua fábula A Cigarra e a Formiga. Leonor nunca conseguiu, por mais que vez ou outra tentasse, ser outra coisa senão cigarra. Mesmo a cigarra é essencial para a natureza, tanto a formiga quanto a cigarra são essenciais para o equilíbrio da natureza. Eu, como o filho primogênito de Leonor, demorei muito para entender, mas entendi em tempo de aceitar Leonor no mundo não como mãe — aquela imagem inclemente de Virgem Maria que os homens brancos pintam as mulheres, mas simplesmente como mulher: como a cigarra que Leonor era. Assim como seu filho, quem escreve essa contristação em forma de palavras, Leonor não pediu para vir ao mundo. Mas veio e foi Leonor da melhor maneira que ela conseguiu ser. Leonor poderia ainda estar viva, se esse país de merdas não se deixasse sucumbir ante o projeto de morte orquestrado por Jair Bolsonaro, se tivesse defenestrado o genocida desde o início e tivesse comprado vacinas a tempo, se tivesse investido mais no SUS, se tivesse tantas outras coisas possíveis, tantas outras coisas possíveis, tantas outras coisas possíveis… É impossível conceber que meio milhão de pessoas morreram, sem que precisassem, mortes evitáveis, se, se, se… e ainda morrem, ainda morrem, continuam a morrer… Como eu queria que Leonor, mulher, mãe, irmã, filha, cigarra, tivesse arranjado um namorado gringo e fugido com ele para outro país. Talvez Leonor estivesse viva e vacinada a tempo, mandando cartões postais, celebrando seu hedonismo. Mas Leonor preferiu ficar na sua casa, mesmo aos pedaços, sacrificou-se pela filha mais nova, jamais conseguiu romper o pacto com as irmãs de sangue. Por culpa do governo, tomou a primeira dose da vacina tarde demais, por medo ou orgulho não procurou ajuda aos primeiros sintomas, quando recebeu ajuda já era tarde demais, o vírus destruiu Leonor com a mesma velocidade e brutalidade que aqueles que estão no poder vêm destruindo o país, as florestas dos pulmões derrubadas e incendiadas, os rins, que filtram rios, secos, petrificados… Leonor morreu de uma morte evitável… Leonor minha mãe…

mãe

diga, Leonardo

não tenha vergonha de ser hedonista

de ser mulher

antes de ser mãe

mãe

diga, Nadinho

nós somos um

homem, mulher, rico, pobre, todos

no fim

somos apenas pessoas, apenas pessoas

mãe se o fogo para, perde o oxigênio

a mãe morreu, Leonardo

como assim?

minha mãe morreu

Leonor Triandopolis

( *01/08/1952 + 28/05/2021)

, minha mãe.

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