Radicalizar para decolonizar a noese de uma arte sob constante ataque de um antigo e novo colonialismo: o colonialismo digital

O Violeiro (1899), de Almeida Júnior.

Antes de ser arrebatado e transmutado por agentes subversivos e marginais tais como Lima Barreto, Oswald de Andrade, Waly Salomão, Paulo Leminski, Guimarães Rosa, Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Ângelo, Rachel de Queiroz, Hilda Hilst e tantos e tantas que foram amputados/amputadas do meu corpo-convívio-corpo-cultural durante a minha infância, adolescência e início da vida adulta, eu já exercitava a arte, mas uma arte quadrada, vira-lata, colonizada e resignada. Uma arte acrítica que, (no sentido de) mesmo procurando certo criticismo e reflexão, padecia sob a clausura de uma enfermidade intelectual estritamente relacionada a essa amputação do meu corpo-convívio-corpo-cultural.

Defenestrado desde o seio familiar, passando pelo ambiente escolar, do mesmo modo os tais círculos sociais e igualmente pela cultura de massa, muito mais fácil (aqui em um sentido de acesso e não de complexidade) do que ler/escutar/assistir/discutir um brasileiro era (e ainda é) consumir um estrangeiro, de preferência (e imposição) vindo dos tais impérios decadentes (além mar) ou mesmo os emergentes-protos-decadentes (ao norte do mapa). Se fosse ler/escutar/assistir/discutir (já uma ousadia em si!), que no máximo me limitasse às grades de uma tradução/dublagem/legenda, porque se cada língua é seu próprio universo, quem era eu (silvícola sem alma?) para sequer cogitar ler de igual para igual, horizontalizar o obelisco de uma suposta arte universal. A “boa arte” é universal, dizem eles (papagaiamos nós?).

De universal na arte somente a morte.

Daí que eles do lado de lá teorizem a morte enquanto nós, os colonizados, morremos de fato.

Mas vá.

Essa teratia de se deixar pautar por um cânone imperialista (e seus perpetradores — colonizadores e colonizados), que jamais pisou sobre os cadáveres que nós (eu e você) pisamos, resultava em uma arte impregnada por vícios e paráclases dessa noese defunta, incapaz de renascer através da inovação, me exilavam da minha identidade, do meu povo, do meu quintal, mesmo sem a necessidade de literalmente me exilar em estrangeiras fronteiras-espaços-físicos. Autoexílio, inconscientemente, através do que consumia e produzia artisticamente.

Já não bastava os moçárabes atrofiados pelo helenismo, a moda que reverberou foi o eurocentrismo. Daí foi um passo para Max Weber se apropriar, distorcer e, através do “novo” imperialismo estadunidense usurpar o mito e a narrativa de protagonismo. Liberalismo, protestantismo, patriotismo, liberdade(?), oportunidade (?), Hollywood, (oi?), beat, pulp, Falkner, Twain, Kerouac, Mc Donald, Netflix, Amazon…

Depois de tropeçar em Catatau, de Paulo Leminski, reencontrar-me com Lima Barreto, Glauber Rocha e seu cinema novo, Tom Zé e seu trabalho a partir da imperfeição… passei a travar uma antropofagia (oswaldiana?) em duas frentes: primeira, decolonizar não só o corpo-convívio-corpo-cultural, mas também o corpo-convívio-filosófico-científico-social, desse colonialismo clássico de militares, mares, positivismos e elitismos; e, segunda, provocar uma ruptura, a mínima que seja, no velho que insiste em não morrer ao se reinventar como colonialismo digital. “Big Techs”, Jeff Bezos, Elon Musk, redes sociais, memes, Uber, George R.R. Martin, Stephen King, John Green, influenciadores digitais, cursos de escrita criativa, coaching…

Note, é uma antropofagia não uma ruptura. O planeta é um só, a espécie humana (infelizmente?), até onde se sabe, é uma só. Elementar é andar com as próprias pernas para depois, só depois, decidir o que for sem a necessidade de um porquê. Consciência, responsabilidade, horizontalidade e autonomia. Devorar-se para depois devorar se. Se…

É substancial radicalizar, tomar consciência das próprias raízes. O corpo-caule-convívio-filosófico-científico-social-cultural deixa de criar, enquanto mera transição de um estado para outro, e passa a , enquanto manifestação da essência do que se é em forma de arte. Um burguês (colonizador clássico ou colonizador digital) é um criador de desigualdades, um artista radicalizador-inconformista é um de universos.

Um indivíduo ou uma comuna que anda com as próprias pernas.

Escritor e editor. Conheça meu trabalho em leoescreve.com.br

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